E agora, quem poderá nos consolar?

Marcelo Chaim Chohfi 1

Conversa entre Irmãos sobre a crise dos últimos tempos e as desgraças vieram de brinde para quase todos. Inventário desanimador, elaborado a várias mãos, descrevendo tim-tim por tim-tim os acontecimentos dos últimos anos.

Com a pandemia do coronavírus, nos distanciamos e sofremos com a suspensão das sessões presenciais, com a falta dos calorosos abraços, do respeitoso ósculo a cada reencontro, bem como do clima amistoso dos ágapes. “Definitivamente, o que fizemos
para merecer tamanho castigo?”, foi o desabafo de um dos Irmãos.

Como desgraça pouca é bobagem, outro já rememorou as enfermidades que acometeram alguns dos nossos pares, todos muito valorosos e queridos. Apenas para exemplificar, citou um Irmão, jovem ainda, que teve diagnóstico de câncer, sujeitando-se à grave cirurgia e dolorosa recuperação. Comentou também sobre outro, que teve um derrame e quase não se safou. Todos acompanharam, rezaram, ajudaram no possível e, sem dúvida alguma, sofreram juntos. E arrematou: “Nós só buscamos fazer o bem! É difícil compreender o porquê disso tudo! Será que fomos esquecidos nos planos traçados pelo Grande Arquiteto do Universo?”

O papo foi longe e, aos poucos, ganhando ares de verdadeira tragédia épica. O único foco da prosa era a desgraça proporcionada nos últimos tempos. Apesar dos interlocutores serem pessoas bem formadas e crentes num Ente Superior, de forma estranha, nada do que ali se dizia tinha foco de luz. Bem ao contrário, havia uma perigosa carga de desânimo com a vida, além de certa desilusão com os desígnios de Deus. Um espirituoso Irmão (daqueles que não perde a oportunidade do gracejo), chegou a brincar com o jargão do conhecido e atrapalhado herói Chapolin Colorado: “Oh, e agora? Quem poderá nos defender?”

Foi o gancho para uma reflexão com um pouco mais de luz e menos trevas, capitaneada por um bom e velho mestre Maçom, cuja instrução de vida fora esculpida na mais fina carrara da razão filosófica. Resolveu, então, contar-lhes uma pequena história, para tentar achar uma resposta, ou mesmo algum sentido em tudo aquilo. E seguiu: Imaginem alguém criado em bom berço, bem formado e muito dedicado ao estudo da filosofia clássica. Galgou vários postos de destaque na política, em sua época, mas sempre os exerceu com lisura e de acordo com seus rigorosos alicerces éticos, jamais apartando os olhos da justiça e da propagação de virtudes na sociedade.
Porém, atuando no parlamento, viu-se obrigado a tomar defesa de um colega (também senador), acusado injustamente. Sua índole, aliás, não lhe permitiria uma postura diversa. Exatamente por isso, foi acusado de crime de “lesa-majestade” e acabou condenado à morte. Não bastasse a injustiça da condenação, foi severamente torturado, por dias a fio, até a consumação da pena capital.

Sentia-se abandonado e injustiçado, já que, em sua vida, somente fez promover o bem, não sendo compreensível, em sua lógica, a prevalência de tanto mal e dos interesses dos tiranos. Não via consolo, nem mesmo nas musas que o visitavam, entoando seus versos de dor. Foi então que uma mulher, após expulsar tais musas lamuriosas, começou a dialogar com aquele pobre e injustiçado condenado.

A mulher ouviu sua história e suas lamentações, no estilo “os inocentes dobram-se ao castigo, os perversos postam-se no alto”. Ela, então, assumiu o papel de enfermeira da alma daquele homem de bem. Em primeiro lugar, procurou remover o que chamou de “tumor” provocado pela desordem das emoções que lhe dominavam a mente. Lembrou que o universo sempre foi ditado por uma lógica de razão (logos), que nos leva ao Uno. Por esse motivo, nosso mundo não é caótico, nada é fruto do acaso, nenhum acontecimento é incompreensível ou alheio à Razão Divina.

A curiosa visitante, também lhe falou sobre a “roda da fortuna”, que é uma oscilação própria do universo. Lembrou que a felicidade material nunca é completa e sempre tem um fim. Por outra parte, não podemos sofrer por perder aquilo que não é (e nunca foi) verdadeiramente nosso, como os bens, as pompas e as honrarias. Aliás, a “fortuna adversa” (perda dessas benesses passageiras) é, como regra, mais benéfica ao homem, pois nela encontramos a oportunidade de crescimento e de aproximação com o nosso único e verdadeiro Eu. A felicidade, assim, independe da fortuna material, ou da falta dela.

Por fim, a sábia mulher explicou o aparente paradoxo entre o controle do Divino sobre todas as coisas e o livre arbítrio dos homens, justificando que isso se deve aos limites do nosso uso da razão. Uma alma apenas perde sua liberdade quando se permite baixar ao mundo inferior e, inebriada sob o véu da ignorância, submete-se a uma servidão, causada por sua única e exclusiva responsabilidade. Lembrou, contudo, que “as faculdades superiores podem compreender as subalternas, enquanto estas não podem jamais elevar-se ao nível das que lhes são superiores” (ou seja, sem elevação da nossa razão e consciência, nada compreenderemos). Nenhuma vírgula de nossas vidas foge, portanto, à razão do Divino, que tudo vê e controla, mas nossos sentidos, dissociados da razão e da inteligência, nada podem perceber além da matéria.

E o nosso Irmão concluiu, enaltecendo o feito daquela iluminada mulher. Seus diálogos resgataram aquele homem à retomada da razão, mesmo em meio à tamanha dor e incomensurável sofrimento. Ele se convenceu que não era o momento de abandonar seus princípios, sua razão e a sua fé no Supremo. Percebeu que a verdadeira felicidade e a fortuna estavam no seu bem agir pretérito (que não se corrompeu nem mesmo quando deteve e exerceu o poder). E, assim, foi consolado no cárcere, até ser levada à
cabo sua pena capital.

Diante daquela pequena história – clássica – todos foram remetidos a um raciocínio paralelo com a realidade que estavam a comentar há pouco. Perceberam que o momento atual era apenas uma prova de que a roda da fortuna havia feito mais um giro e, agora, tinha nos deixado de cabeça para baixo. Porém, souberam identificar que a verdadeira felicidade sempre esteve no nosso bem agir e nas amizades verdadeiras que cultivamos.

Se as sessões foram suspensas, temos o dever de agradecer pela fraternidade, que não sumiu e nem diminuiu. Na verdade, nossas ações solidárias e altruístas, individuais ou coletivas, precisaram potencializar-se, e o foram! Vários Irmãos dedicaram-se, mesmo no isolamento de seus lares, ao aquecimento do convívio familiar e da melhor dedicação amorosa aos seus próximos. Alguns acharam o tempo que faltava para novas leituras, sempre importantes para uma crescente lapidação da razão e revigoramento da instrução de vida. Enfim, cresceram na crise e viram, nos males, oportunidades de desenvolvimento de várias coisas boas que sempre nutriram.
Outro ponto importante foi observado. Todos sofreram e se solidarizaram com o câncer, a cirurgia e o penoso tratamento daquele querido e jovem Irmão, como já foi dito. Mas, com um olhar mais distante e macroscópico, agora puderam enxergar algo a mais. Ele, por exemplo, teve a ventura de ser diagnosticado de forma relativamente precoce e, ao final, curou-se. Mais do que isso, um dos seus irmãos (de sangue), somente em razão de sua doença, buscou fazer exame preventivo e descobriu que também estava com o mesmo mal. Graças a isso, também foi curado em tempo. A doença de um, indesejada (sem dúvida), foi o canal de diagnóstico e cura de seu ente amado. E certamente serviu de sinal de alerta para vários outros Irmãos e amigos.

Por sua vez, refletiram sobre o caso do nosso Irmão que sofreu um derrame. Foi muito grave e pessoa de alma iluminada e que só fez e faz o bem! Novamente nada é decorrência do inexplicável acaso (caos). O mundo segue uma lógica atrelada à Razão Divina (logos) e, neste sentido, é que todos viram sua recuperação ocorrer de forma surpreendente e, felizmente, sem sequelas (mesmo dentro de um prognóstico médico pouco favorável a isso). Lembraram felizes que nosso Irmão está bem e entre nós, com novos hábitos de vida e de saúde, contagiando a todos com suas boas ações e trabalho árduo em prol do bem comum. Definitivamente, o Grande Arquiteto do Universo não nos abandonou. Quando muito, Ele mandou um recado para o nosso Irmão (e a nós, por tabela), que poderia ser traduzido, em linguagem coloquial, como um “Fica esperto! Se cuida, porque sua obra é importante, ainda não foi concluída! Vários precisam de ti!”.

“Ufa! Que reflexão!”, exclamou um dos Irmãos. “Quantas máximas do dia: o universo não é caos, é logos; tudo tem um sentido ditado pela Razão Divina; devemos aprender e evoluir com a crise, ou com a tal “fortuna adversa”; as adversidades são recados Divinos e não castigos particulares e imerecidos; troquemos o olhar próximo e vitimizado, pela compreensão altruísta e mais elevada do todo, através da preciosa lente da razão; busquemos, enfim, a verdadeira felicidade imaterial fora das fortunas passageiras, pois isso é que nos aproximará do único, justo e perfeito Eu Divino.”

E, então, o Irmão prosseguiu no uso da palavra e finalizou, com semblante de pura curiosidade: “De onde tirou essa história? Quem foi essa valorosa mulher?

O nosso bom e velho Mestre, então, finalmente revelou a fonte: o prisioneiro, foi Boécio, que viveu no século VI, nos finalmentes do Império Romano, já dominado pelos bárbaros. A tal mulher que o consolou no cárcere foi, nada mais e nada menos, do que a “Filosofia”. A história é uma síntese da preciosa obra de Boécio – “A Consolação da Filosofia” – escrita em meio a todo o sofrimento vivenciado no seu cárcere, até a sua execução. De resto, conclui que, “se a Filosofia consolou Boécio, certamente não nos abandonará agora!”

1 M… M… na A…R…L…S… Constância (nº 1.147) e membro da Academia Campinense
Maçônica de Letras (cadeira de nº 31 – Patrono: José Bonifácio de Andrada e Silva).