Curso de imersão em linguagem simbólica da vida

Aos olhos de quem está de fora, foi apenas mais uma pescaria da turma de sempre.  Mas não foi!  Cada versão anual vem carregada de um delicioso e inexplicável ineditismo.  A sensação é de um moleque de antigamente, que se deleitava assistindo Rambo I, depois o II, o III e, se tivesse o XLII, também curtiria cada nova edição, com a mesma emoção de quando assistiu o primeiro filme da série.  Neste ano, não é preciso dizer, foi bom outra vez!  E trouxe de brinde – ao menos para os olhares mais atentos – um verdadeiro curso de imersão em linguagem simbólica da vida.

Dentre os nove participantes, três não eram Irmãos – de avental – mas todos os demais os viam como tal, ao menos numa consideração íntima de convívio fraternal.  São pessoas que, a cada palavra, dão vazão a um tom de voz único e inconfundível, vindo do coração.  Indivíduos do bem, livres e de bons costumes, essenciais à humanidade e que alimentam nosso espírito de boas energias (com o perdão do sentimento egoísta, próprio de quem usufruiu recentemente de tamanha ventura de convívio).

Antes da pescaria, muita apreensão, pois um valoroso Irmão havia decidido não viajar neste ano, em razão da pandemia e, também, em respeito ao receio e preocupação de seus familiares, principalmente dos amorosos filhos.  O receio era justo, mas o médico de confiança explicou que o risco lá e cá era equiparado, por um mínimo de exposição que, de qualquer forma, estaria sujeito. Foi aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo quando veio a boa notícia de que o time de pescadores seguiria completo.  Não deu tempo nem de soltar rojões para comemorar a boa nova, foi só juntar as tralhas, arrumar a pequena mucuta e montar na caminhonete.

A felicidade, contudo, não retirou a preocupação de todos com o acerto (ou não) daquela escolha.  Após poucos dias de estada no rancho, nosso Irmão recebeu uma notícia inesperada de seus familiares.  É que, em sua cidade, alguns poucos amigos se reuniram socialmente (e nosso Irmão certamente estaria junto) e, no dia seguinte, ficaram sabendo que um casal muito próximo havia testado positivo para covid-19.  Foi, por certo, o Grande Arquiteto do Universo, operando em seus desígnios, desta vez para afastar um de seus preciosos filhos de uma situação de risco.  Não foi coincidência ou sorte, mas sim, uma clara mensagem velada (ou talvez alguma espécie de profecia do universo consciente) de que aquele abençoado encontro seria mais uma aula de vida para todos.

E, para não desmentir a profecia, vamos a alguns flashes desta magnífica viagem de relaxamento, reflexão e aprendizado metafísico.

As orações, na chegada e na saída do Rancho, de mãos dadas e braços entrelaçados, são de lei.  Um momento de energia convergente ao Divino que, não fossem as lágrimas (que sempre embaçam o cristalino), a força daquela egrégora seria certamente visível aos olhos.  Desta vez, de forma peculiar, seguindo as lindas palavras do decano na oração de entrada, um a um falou com o coração, agradeceu, fez uma retrospectiva de sua participação naquele círculo fraterno de pescadores e Irmãos, pedindo proteção para mais esta empreitada da turma.  Na saída, antes de partirem com as caminhonetes lotadas de peixes (alguns dirão que é versão mentirosa de pescador, paciência!), a tônica foi de agradecimento mais intenso, com um pedido muito simples e por demais importante: que todos retornem em paz e segurança e, principalmente, que reencontrem os seus familiares em harmonia e com saúde! Que bênção, pois assim aconteceu! O mais relevante é perceber que a elevação Divina não se trata de uma mera tradição formal ou protocolar, mas sim, uma ritualística com sentido, uma construção coletiva e sincera de sentimentos e razão espiritual, fazendo com que a consciência dos participantes reflita e compreenda que aqueles dias de pescaria sempre transcendem à mera diversão e desconexão do trabalho e da correria da vida ordinária.

No primeiro dia de efetiva pescaria, apesar da água fria e um pouco de vento, a paisagem já era deslumbrante.  Tudo melhorou com a saída dos barcos e a visão do céu azul no horizonte, o que não podia ser diferente pelo lindo reflexo do sol, ainda tímido, naquele riozão de margens quase que infinitas, tudo temperado com uma leve brisa que massageava o corpo dos admiradores daquele paraíso.  Antes, porém, no pier, de forma discreta, um dos Irmãos (sem avental), com a sua bondade sem tamanho (que lhe é peculiar), atrasou um pouco os preparativos de sua canoa, para chegar ao lado do parceiro que não tinha experiência com a pesca de tucunarés e, sem nada falar, começou a explicar a regulagem da carretilha, a melhor forma de arremesso, além dos macetes básicos daquela arte.  “Oh, quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união”.  O texto do Livro da Lei – que nos é muito caro – foi a mensagem que apareceu instantaneamente na mente de quem presenciou a pequena atitude daquele grande coração.  Um exemplo positivo que ficou impregnado na alma.  Se havia quem lesse ou escutasse tal versículo, numa visão meramente teórica, teve ali uma lição clara de sua concretização na vida.  Nas reflexões posteriores, um sentimento bom, uma lição de vida.  Um pequeno arquétipo de figura fraternal a ser replicado e ampliado.

Em cada ponto de pesca, o piloteiro desligava o motor principal da popa, acionava o pequeno e mais silencioso motor elétrico da proa e, manobrando-o com o pé, arremessava e recolhia sua isca artificial de superfície, para atrair o peixe predador alvo da vez.  Um ou outro pescador optou pela pesca de arremesso e, outros, optaram pela pesca de corrico, com lambari, arrastando a isca viva no fundo do poço.  Com as primeiras puxadas e, principalmente, com a tirada de um exemplar ainda pequeno, alguém já brincou: “já achamos o berçário, agora vamos atrás dos pais”.  A empolgação tomou conta e os arremessos passaram a se intensificar.  O novato empolgou-se e, em pé, resolveu arremessar na superfície.  Descuidado que só, tomou uma fisgada de garatéia nas costas.  O anzol, com a fisga contrária, adentrou no couro e na carne do lombo e não queria sair.  O piloteiro virou cirurgião, canivete rasgou a camiseta e o alicate cortou o aço do anzol, a cachaça serviu de anestesia, até a retirada do danado encravado.  Dor? Sim, mas, com mais uma lição.  Cada um na sua, cautela e parcimônia precisavam ser lembradas e praticadas, na pescaria e, obviamente, na vida.

Noutra manhã de pescaria, nosso experiente Irmão de pesca, parceiro de canoa, cunhado na mais preciosa disciplina das nobres fileiras da guerra patriótica, não parava de dar exemplos de paz, temperados com prosa de elevada cultura e gotas de preciosos trocadilhos xistosos.  Deu uma dica: ao sair pela manhã, os braços abertos na canoa representam um sinal de agradecimento ao Grande Arquiteto do Universo pela oportunidade do reencontro com uma natureza de beleza inesgotável.  Mais um ritual, mais uma lição de energização da alma, de eficácia a ser estudada pela ciência dos incrédulos.  Como não agradecer, mais uma vez?

Apoitados em águas mansas, tentando fisgar os últimos e melhores exemplares, a paz reinou. O piloteiro atencioso, no meio da prosa, começou a falar da vida local, simples, recheada de problemas, similares aos nossos, mas bem diferentes em medida.  Familiares que se envolveram em questões sociais muito polêmicas e peculiares, que foram apreciadas pela Justiça, na sua visão foram sentenciados com uma visão formal, protocolar, típicas de um julgador que não teria (na sua concepção e, talvez, de forma real) a noção real da vida daquele povo.  Na canoa, dois operadores do Direito que se entreolharam pensativos, absorvendo a novela dramática da convivência humana daquele rincão. Minutos de silêncio, abençoados com o som da natureza, alimentaram uma dura reflexão sobre a absoluta impossibilidade de encararmos – qualquer ofício – dissociado da dignidade das pessoas envolvidas. Definitivamente, ninguém estava ali só para pescar e se divertir.  A mente aberta ao aprendizado, mesmo preguiçosa, estava constantemente sendo provocada pelo Divino.  Mais uma lição para a vida.

Pulando vários e ricos episódios, que não caberiam em qualquer arrazoado, passemos direto para o retorno aos lares. Leves, alimentados na alma, voltaram todos rumo à realidade da selva de pedra. A viagem seguia harmônica, regada à moda de viola (como harmonia de fundo), até que um engarrafamento veio para atrapalhar o percurso fluído.  O piloto (já não mais o piloteiro) seguiu com a viatura na fila da esquerda.  Para variar, os carros da direita pareciam seguir mais rápidos.  No início, ninguém expressava o pensamento de “se fosse eu, já teria mudado de pista”, até que alguém externou a sugestão.  Foi a bola levantada para mais uma reflexão, conversada em forma de mais um leve e derradeiro aprendizado.  Sempre que se muda de pista, a que estávamos parece voltar a andar mais rápido.  É batata! Azar?  Muito provavelmente não! Talvez seja mais uma clara mensagem do universo: larga a mão de ser afoito, apressado, pois tudo tem seu tempo!  Mensagem kármica, remédio natural contra a ansiedade, preciosa lição simbólica da vida!

É! Terminou! Apenas esta edição da pescaria.  A saudade dos Irmãos já arrebata o coração, com amor e lindas lembranças! Ao grande Arquiteto do Universo, mais uma oportunidade de agradecimento por tantos momentos bons de convívio fraternal! Nada melhor do que a maturação reflexiva pessoal para compreender e absorver tanta lição neste pequeno curso de imersão na mensagem simbólica de vida! O conhecido livro Bardo Thodol – o livro dos mortos tibetano – nos lembra que todo segundo de vida tem algo a nos ensinar, senão a própria oportunidade de vida já nos teria sido retirada! Resta, a quem viveu esta aventura abençoada, bradar: Obrigado! E até a próxima!

Marcelo Chaim Chohfi[1]


[1]  M... M... na A...R...L...S... Constância (nº 1.147) e membro da Academia Campinense Maçônica de Letras (cadeira de nº 31 – Patrono: José Bonifácio de Andrada e Silva).